Mosteiro de Santa María la Real de Irache
O Mosteiro de Irache, em basco Iratxeko monasterioa, é um grande conjunto monástico em Ayegui, na Merindad de Estella, em Navarra. As suas origens não são claras: podem remontar ao século VIII, e há quem atribua a fundação ao rei Sancho Garcés I de Pamplona. Os elementos arquitetónicos conservados comprovam a sua existência no século XI, quando recebeu numerosas doações.
O mosteiro foi dirigido pelos beneditinos, conhecidos pela disciplina, pela educação e pela hospitalidade, e deixou uma marca profunda na cultura da região.
A festa da sua invocação celebra-se a 8 de setembro.
É um dos conjuntos monumentais mais destacados de Navarra e está muito bem conservado: ao contrário de La Oliva ou da vizinha Iranzu, a igreja nunca foi abandonada. Fica junto ao Caminho de Santiago, perto de Estella e ao pé de Montejurra. Os seus edifícios, de épocas diferentes, juntam o românico das partes mais antigas da igreja (século XII), o cisterciense, o plateresco do claustro e o herreriano da torre.
Grande parte das imagens e retábulos foi levada para a igreja paroquial de Dicastillo com a desamortização de Mendizábal, em 1836, incluindo a talha original de Santa María la Real de Irache; durante a primeira guerra carlista, um incêndio em 1839 causou graves perdas no recheio dessa igreja.
O edifício teve muitas funções: hospital jacobeu, universidade (1569-1824), hospital de sangue nas guerras carlistas e colégio dos escolápios (1885-1984). Entre pelo menos 1937 e 1939 foi um campo de concentração franquista, um capítulo sombrio da sua história. Desde 1985 está sem uso regular.
Em 2005 o Governo de Navarra, proprietário, cedeu-o gratuitamente ao Estado para o transformar num Parador Nacional, mas o projeto ficou parado catorze anos; em 2020 iniciou-se a sua devolução à Comunidade Foral de Navarra.
Contexto geográfico
Como noutros mosteiros, a localização foi escolhida com cuidado: num ponto elevado sobre o rio Ega, que permitia controlar as férteis terras da veiga.
O sopé de Montejurra oferecia pastos, madeira e água de várias fontes, ribeiros e nascentes da drenagem de Montejurra e do diapiro de Estella.
Fica também sobre a antiga via romana de Iacca (Jaca) a Vareia (Logroño), a 2 km de Estella, a meio caminho entre Pamplona e Logroño. Além de referência no Caminho de Santiago, a localização servia os interesses da monarquia de Pamplona, sobretudo quando tinha posses na atual La Rioja, entre os séculos IX e XI.
No final do século XI a situação mudou com o nascimento de Estella, povoada por francos, que cresceu rapidamente no século XII até se tornar um próspero centro urbano e paragem obrigatória do Caminho Francês.
História do mosteiro
Idade Média
No século XVII, o cronista beneditino frei Antonio de Yepes defendeu que o mosteiro era da época visigótica, mas não há provas escritas nem arqueológicas disso.
Expansão: 958-1225
As primeiras referências documentais ao Mosteiro de Irache são de 958. Atribui-se a sua fundação a Sancho Garcés I em 908, depois da conquista do castelo de Monjardín, antes chamado de San Esteban.
No século XI o mosteiro ganhou grande importância, alargando as suas posses com doações e com a incorporação de outros mosteiros. A localização, no Caminho de Santiago e no centro do reino de Pamplona, quase a meio caminho entre Pamplona e Nájera, contribuiu muito para isso.
Entre 1052 e 1054, por ordem de García Sánchez III, o de Nájera, construiu-se aqui o primeiro hospital de peregrinos do reino. O mosteiro viveu o seu esplendor no século XI, no longo abaciado de São Veremundo, com numerosas doações. Em 1061 Sancho IV de Peñalén fez duas doações referindo-se a “Sancte Marie ad cuius honorem ecclesia edita est et monasterium quod dicitur Yraç.”
Entre os séculos XII e XIII construiu-se a igreja atual. Embora o papel assistencial de Irache no Caminho diminuísse com o crescimento de Estella, esse crescimento também aumentou as rendas do mosteiro: em 1187 Sancho, o Sábio, doou-lhe a igreja de San Juan de Estella. No último terço do século XII e na primeira metade do XIII, Irache viveu um segundo florescimento económico que permitiu terminar a igreja abacial.
Do segundo terço do século XV até 1522, o mosteiro foi governado por abades comendatários, que viviam fora da abadia e se interessavam mais pelas rendas do que pela comunidade. A vida monástica degradou-se e, com a guerra civil entre agramonteses e beaumonteses, a maioria dos monges teve de fugir.
Idade Moderna: a Universidade Real de Irache
A história da Universidade Real de Irache começa com a reforma beneditina iniciada em 1390 em San Benito de Valladolid, que chegou a Irache a 24 de abril de 1522 e renovou a comunidade. Em 1531 o mosteiro integrou-se na Congregação de San Benito de Valladolid.
A 25 de setembro de 1531 o geral da congregação, Alonso del Toro, tomou posse do mosteiro e nomeou abade trienal o burgalês Francisco de Orense. O abade de Irache tinha assento no capítulo geral de Valladolid e voto nas Cortes de Navarra.
Entre 1539 e 1544 já funcionava aqui um Colégio de Artes e Teologia, base da universidade, fundada formalmente em 1569. Antes, em 1534, o papa Clemente VII tinha concedido ao mosteiro de San Facundo de Sahagún a faculdade de dar graus académicos.
Duas circunstâncias impulsionaram a universidade. Filipe II proibiu os estudantes de estudar no estrangeiro, e Navarra e as províncias bascas não tinham universidade; o rei pediu aos beneditinos que trouxessem a sua universidade de Sahagún para Irache, o que o papa Paulo V aprovou em 1605.
Além disso, ao longo do século XVI as Cortes de Navarra apresentaram várias propostas para criar uma universidade no reino.
Em 1616 a universidade recebeu o estatuto de pontifícia, de Paulo V, confirmado por Filipe IV em 1665. Foi a primeira universidade de Navarra.
Como universidade menor, conseguiu que a Universidade de Salamanca reconhecesse os seus graus. Tinha cinco faculdades: teologia, filosofia, direito canónico, direito civil e medicina; as três primeiras foram as mais cultivadas, tal como as línguas clássicas e semíticas e a história. A sua tipografia teve um papel importante na difusão do saber.
Depois do auge do século XVII, a universidade decaiu no início do século XIX; foi suprimida por Carlos IV em 1807 e encerrou definitivamente em 1824.
Época contemporânea: hospital de guerra
O Mosteiro de Irache foi usado várias vezes como hospital de guerra. O exército de Napoleão expulsou os monges e transformou-o em hospital; depois da Guerra da Independência, os monges voltaram em 1820.
Fernando VII devolveu o convento à vida monástica em 1824, mas em 1839, no fim da Primeira Guerra Carlista, ficou desabitado e abandonado. Durante essa guerra foi hospital de sangue para os feridos carlistas. Fechada a vida monástica, os retábulos e a imagem da Virgem de Irache foram entregues à igreja de Dicastillo, como compensação pelas perdas que esta paróquia sofrera no conflito.
Na Terceira Guerra Carlista voltou a ser hospital, gerido por La Caridad, organização dirigida por Margarida de Bourbon-Parma, mulher do pretendente. Passou depois para o Estado e foi declarado monumento histórico-artístico a 24 de abril de 1877. Em 1887 foi cedido à Ordem das Escolas Pias, que ali teve noviciado e colégio até 1984.
Na Guerra Civil foi requisitado pelo lado sublevado e transformado em campo de concentração de prisioneiros republicanos; em maio de 1939, com a guerra já terminada, ainda cumpria essa função.
Projeto turístico
Em 1986 o mosteiro passou a depender do Governo de Navarra, que a 10 de abril de 2006 acordou cedê-lo ao Instituto de Turismo de Espanha, cessão aceite pela Direção-Geral do Património do Estado a 30 de outubro desse ano, para construir um Parador Nacional.
A cessão incluía o conjunto monástico, exceto a igreja e a sacristia, e uma quinta próxima de 5019 m², por cinquenta anos prorrogáveis por outros cinquenta, no quadro de um esforço para dotar o Caminho de Santiago de alojamentos de qualidade.
O parador nunca se fez, e em 2020 a Administração central decidiu devolver o imóvel ao Governo de Navarra.
Entre a realidade e a lenda: São Veremundo
Uma das lendas mais interessantes de Irache tem como protagonista um dos seus abades, São Veremundo, que viveu entre 1056 e 1098 (abade de c. 1056 até à sua morte) e cuja festa se celebra a 8 de março. Pouco antes do seu abaciado tinha-se fundado o hospital de peregrinos, que funcionou até 1090.
O rei Sancho IV de Peñalén, seu contemporâneo, ampliou muito o domínio do mosteiro com 12 pequenos mosteiros, 3 igrejas e 6 vilas, a que se juntaram doações de particulares. Durante o governo de Veremundo, os mosteiros e igrejas dependentes quintuplicaram e as vilas triplicaram.
Conta a lenda que o abade, contra as normas da comunidade, levava às escondidas comida aos peregrinos do hospital, escondida sob o hábito; quando os irmãos o obrigavam a mostrar o que levava, os alimentos transformavam-se em flores ou em lenha.
Junto ao mosteiro ficam as famosas Bodegas Irache, abastecidas pelas vinhas que o rodeiam. A sua fonte tem duas torneiras: de uma corre vinho e da outra água fresca, um dos lugares mais fotografados do Caminho, ligado à tradição vinícola de Irache e à memória de São Veremundo.
Conjunto monumental do Mosteiro de Santa María la Real de Irache
O conjunto é formado pela igreja, com um adro diante do portal oeste e a torre, um claustro com sobreclaustro a sul, outro claustro a oeste, chamado claustro novo, a sacristia, a sala capitular e o refeitório. Ocupa 6905 m², dos quais 1073 correspondem à igreja.
Restauros
O monumento foi restaurado muitas vezes: a cabeceira entre 1976 e 1982, a torre em 1995-1996, o zimbório e o transepto norte entre 1996 e 1998, o transepto sul em 1999-2000, as coberturas da nave norte em 2000, a fachada ocidental, o adro e o tramo ocidental do interior em 2002-2003 e as coberturas das restantes naves em 2016; os muros e abóbadas interiores foram restaurados até novembro de 2018. Entre julho de 2019 e julho de 2020 fizeram-se escavações arqueológicas que confirmaram estruturas anteriores: uma sondagem geofísica revelou uma igreja mais pequena de tripla abside, na zona do atual cruzeiro e dos dois primeiros tramos da nave central, e as escavações encontraram os alicerces de dois edifícios dos séculos X e XI e uma necrópole cristã dos séculos V a VII.
A igreja
A igreja abacial, do século XII, ergueu-se sobre uma estrutura anterior. Tem cabeceira românica e corpo cisterciense, planta de cruz latina e três naves de três tramos, os da central quadrados; a nave central tem o dobro da largura das laterais e termina numa tripla abside semicircular. As obras prolongaram-se pelo século XIII, o que explica a forte influência cisterciense, inspirada em Santo Domingo de la Calzada. A proporção entre a nave central e as laterais lembra a de Santa María la Real de Sangüesa, da mesma época.
Os pilares são enormes e cruciformes, de ordem gigante, com meias colunas adossadas e capitéis cistercienses que sustentam os arcos; as abóbadas de cruzaria, de perfil ogival, têm medalhões elaborados nas chaves. Ao fundo da nave central há tribunas sob arcos quebrados, com óculos aos pares.
O cruzeiro, da altura da nave central, tem nervuras sobre mísulas com cabeças e motivos vegetais e é coberto por uma cúpula de meia-laranja que substituiu o zimbório original no final do século XVI ou início do XVII. Do zimbório conservam-se os capitéis dos quatro ângulos, com figuras dos quatro evangelistas entre duas cabeças, sobre colunas assentes em pedestais prismáticos.
A cabeceira tem três absides semicirculares: as laterais com abóbada de quarto de esfera e a central com abóbada de berço e de forno, decorada com capitéis historiados. Acede-se por um duplo arco triunfal sobre colunas de ordem gigante, mais finas do que as das naves. Impostas com enxaquetado, motivos vegetais e pontas de diamante dividem o pano da abside central em três registos: em cima, arquinhos cegos alternados com óculos; ao meio, arcos de volta perfeita com três arquivoltas sobre capitéis historiados e três janelas abocinadas; em baixo, um pano liso com um nicho.
As absides laterais são mais simples, com janelas abocinadas de volta perfeita e capitéis vegetais e historiados.
As naves laterais têm janelas ogivais; no cruzeiro destaca-se uma rosácea a leste e, em frente, uma janela de volta perfeita.
A igreja tem dois portais românicos com relevos historiados.
Portais
O portal oeste é do século XIII e mostra a passagem do românico para o gótico, com arcos quebrados. Tem um crismón no arco principal e cinco arquivoltas lisas sobre pilastras nas ombreiras, com quatro colunas de cada lado cujas bases têm motivos vegetais de tipo cisterciense.
O portal norte, chamado de San Pedro, tem cinco arquivoltas sobre colunas com capitéis do século XII, bastante gastos, onde se identificam lutas entre centauros e cavaleiros, animais fantásticos, palmetas, harpias, o sonho de São Martinho e São Martinho a repartir a capa com um pobre. Na chave do primeiro arco há outro crismón.
Exterior
Por fora, a cabeceira reflete a geometria interior: três semicírculos, o central maior, dividido em sete panos por robustos contrafortes, com janelas e óculos. A cornija tem modilhões com cabeças monstruosas e humanas, animais e motivos vegetais, e alguns arcos apoiam-se em mísulas decoradas da mesma forma. As absides laterais são mais baixas e divididas por meias colunas com capitéis historiados e cistercienses.
Sobre o cruzeiro ergue-se a cúpula de meia-laranja, com um zimbório octogonal decorado com corpos semicilíndricos, coberturas cónicas e colunelos, e janelas estreitas de volta perfeita. À direita da entrada oeste fica a torre herreriana do século XVII.
O Tetramorfo
Um dos elementos mais singulares são as esculturas do Tetramorfo que sustentam a cúpula. Segundo a descrição de José Esteban Uranga (1942), estão nos quatro ângulos do cruzeiro, à altura dos capitéis dos arcos torais: sobre um colunelo com capitel românico de grandes folhas assentam as figuras dos quatro evangelistas, em alto-relevo e quase em tamanho natural, rematadas pelas cabeças dos animais simbólicos, com duas cabeças humanas de cada lado; por cima, um grande capitel de folhas e uma imposta com mais duas cabeças de onde nascem arcos simples. São figuras gigantescas, hieráticas e imponentes, pensadas para evocar visões apocalípticas.
O conjunto tem um paralelo notável na Basílica de San Prudencio de Armentia (Álava), com corpos humanos, cabeças simbólicas e asas. Só Mateus mantém a figura humana; os outros substituem a cabeça humana por uma animal, uma hibridação que não vem literalmente dos textos bíblicos e ecoa velhas tradições orientais.
O professor Martínez Álava sublinha que as figuras são um pouco maiores do que o natural e que as cabeças simbólicas individualizam corpos alados semelhantes a anjos, numa composição plana e frontal ajustada ao bloco de pedra. Seguindo a professora Fernández-Ladreda, nota que o escultor usou só dois modelos de pregas, um para São João e São Marcos e outro para São Lucas e São Mateus, com ovais e linhas incisas, o mesmo tratamento das chaves. As cabeças animais, sobretudo a águia, lembram as da abside, e as asas os plumagens das chaves dos anjos e do portal de San Pedro. O São Lucas, muito deteriorado, é o menos conseguido, mais estreito e com mãos e braços deformados; os outros três são mais proporcionados e naturalistas.
Retábulos
Os retábulos estão hoje na igreja de São Celedónio e São Emetério de Dicastillo. Foram levados cinco para essa paróquia, que sofreu muito com as guerras carlistas, sobretudo no incêndio de 15 de outubro de 1839. O altar-mor, dedicado a São Veremundo, abade de Irache, passou a ser da Virgem do Rosário, trocando-se as imagens; o altar de São Bento recebeu as imagens de São Emetério e São Celedónio.
Claustro velho
Irache tem dois claustros: o velho, a sul, e o novo, a oeste. O claustro velho, plateresco do século XVI, é obra de Martín de Oyarzábal e liga-se à igreja pela porta Preciosa, da mesma época, atribuída a Juan de Aguirre.
Claustro novo
O claustro novo é do século XVII. No século XIX uma construção dividiu-o em dois pátios, um quadrado e outro retangular.
Outros edifícios
Na mesma época da torre e do claustro novo construíram-se outros edifícios para a Universidade de Irache, todos de estilo herreriano, sóbrio e elegante.
Santa María la Real de Irache
Santa María la Real de Irache é uma das imagens mais destacadas da escultura religiosa de Navarra e, muito provavelmente, a imagem mariana mais antiga da região. Com a sua «irmã gémea», Santa María la Real de Pamplona, inspirou um vasto conjunto de imagens marianas, o mais importante da imaginária medieval navarra.

Responde ao tipo iconográfico da Sedes sapientiae, «Trono da Sabedoria», de meados do século XII. É de madeira policromada revestida de prata, exceto as mãos e o rosto. A Virgem, totalmente frontal, rígida e simétrica, é apresentada como trono do Filho.
O Menino, segunda pessoa da Trindade e Sabedoria suprema, também frontal e sem aparência de criança, abençoa com a mão direita. Tem uma filactéria invulgar com a inscrição: “Puer natus est nobis, venite adoremus. Ego sum alpha et omega, primus et novissimus Dominus.” Só se conhece um caso semelhante, numa imagem da Suíça.
A talha original conserva-se na igreja paroquial de Dicastillo; no mosteiro há uma cópia.



