Uma mochila e um sonho cumprido

13 Nov 2025 8 min read
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Uma mochila e um sonho cumprido

O Caminho de Santiago foi a experiência mais incrível que vivi nos meus 36 anos de vida. Fiz o Caminho Francês entre agosto e setembro de 2024, em 29 dias e sozinha. O Caminho foi mágico e especial: deu-me a experiência de estar em movimento, de sentir o corpo e a mente a ajustarem-se ao ritmo da viagem, e de compreender que, no fim, o verdadeiro Caminho não estava só à minha frente, mas dentro de mim.

Parti de muito longe, do sul do Brasil, para o viver. O Caminho foi-se transformando numa sequência de pequenos encontros com o mundo e comigo mesma, deixando de ser apenas uma lista de quilómetros a percorrer. Permitiu-me caminhar sem pressa, viver e prestar atenção a cada pormenor, a cada sensação, coisas que na rotina do dia a dia costumamos não perceber. Cada etapa trouxe desafios e descobertas, momentos de esforço físico, de silêncio interior, de encontros inesperados e reflexões que se foram acumulando passo a passo.

Foram muitas pessoas, muitas conversas, muitas aprendizagens, muitos quilómetros pela natureza, mas também muitas horas de silêncio e reflexão. Tudo no Caminho tinha um propósito. Transformou a minha forma de pensar, de ver, de me sentir livre. Fiz todo o Caminho Francês sozinha. Muitos dias começava a caminhar de madrugada, no escuro, às vezes com alguém por perto, às vezes sem ninguém: só eu, Deus e o Caminho. E, por incrível que pareça, nunca tive medo. Ali sentia-me em casa e protegida.

Quando saí de Saint-Jean-Pied-de-Port, enganei-me no caminho. Enganei-me logo no primeiro dia… NO PRIMEIRO DIA! Estava numa mistura de emoção, ansiedade e tantos sentimentos que continuei a andar sem perceber que devia manter-me à direita. Quando reparei que já não havia ninguém à volta, consultei as aplicações e vi que estava no caminho errado. Mas tudo bem, isso acontece quando vivemos os nossos sonhos! O percurso, ainda assim, foi lindo, extremamente lindo! Desejava-o profundamente, sobretudo a travessia dos Pirinéus, a cordilheira do sul de França. O amanhecer foi um espetáculo à parte, indescritível. Paisagens encantadoras, de cortar a respiração, ovelhas, cavalos, muitas subidas sem sombra e depois descidas muito íngremes. A mochila pesava bastante, os ombros doíam, mas era o primeiro dia de adaptação… para mim, para o meu corpo, para ele com a mochila. Dali em diante seríamos um só, durante muitos dias.

No 19.º dia do Caminho, na Meseta, fiz 35 anos e passei a noite em Astorga, uma cidade lindíssima, rodeada de muralhas. Nesse dia fiquei num albergue brasileiro (Albergue Só Por Hoje Astorga) e pude voltar a sentir o sabor da comida do meu país. Mesmo com saudades de casa, sentia que estava exatamente onde devia estar.

Quando chegou o grande dia, aquele que eu já tinha vivido um milhão de vezes na minha cabeça, amanheceu a chover. Depois veio o nevoeiro. No Monte do Gozo, de onde já se vê a cidade e as torres da Catedral, não se via nada. Comecei a ficar ansiosa, porque não queria chegar sem conseguir ver. Mas, à medida que me aproximava, o céu abriu e comecei a avistar as torres ao longe. Pouco antes de chegar à Praça do Obradoiro, em Santiago de Compostela, a emoção tomou conta de mim. Um senhor tocava a música medieval «Dum Pater Familias», também conhecida como «Canto de Ultreia» ou «Canção dos Peregrinos Flamengos», uma das melodias mais antigas ligadas ao culto de Santiago, que acompanha os peregrinos que chegam à praça e à Catedral. Já tinha visto vários vídeos desse momento. Mas estar ali, senti-lo, vivê-lo, emocionar-me… foi inexplicável. E adivinhem? Até o sol apareceu para me receber!

Ali sentada, com a Catedral de Santiago de Compostela à minha frente e a mochila ao lado, vieram ao de cima muitas emoções: risos, lágrimas, pensamentos sobre a minha família, a minha mãe, tudo o que tinha vivido nos últimos anos, o quanto tinha desejado estar ali. Fiquei muito tempo sentada, a viver e a apreciar o momento, a sentir-me viva e a agradecer por tudo.

Neste momento estou a escrever um livro para contar tudo o que vivi e aprendi, um livro que fala também de coragem. O que a vida nos pede é coragem: coragem para ir à procura, coragem para não desistir. Quem caminha percebe que o momento certo é o que se vive, não o que se espera. O chão molhado, o vento contra, o imprevisto… tudo isso ensina mais do que a calmaria. O Caminho nunca promete conforto, mas oferece sempre aprendizagem.

Gracieli Fernandes

Instagram: gracieli_fer


Versão original (português do Brasil)

Uma mochila e um sonho realizado

O Caminho de Santiago foi a experiência mais incrível que vivi em meus 36 anos de vida. Fiz o Caminho Francês entre agosto e setembro de 2024, em 29 dias e sozinha. O Caminho foi mágico e especial; me proporcionou a experiência de estar em movimento, de sentir o corpo e a mente se ajustando ao ritmo da viagem e de compreender que, no fim, o verdadeiro Caminho não estava apenas à minha frente, mas dentro de mim.

Saí de muito longe, do sul do Brasil, para vivê-lo. O Caminho foi se transformando em uma sequência de pequenos encontros com o mundo e comigo mesma, deixando de ser apenas uma lista de quilômetros a percorrer. Ele me permitiu caminhar sem pressa, viver e prestar atenção a cada detalhe, a cada sensação — coisas que na rotina do dia a dia costumamos não perceber. Cada etapa trouxe consigo desafios e descobertas, momentos de esforço físico, de silêncio interior, de encontros inesperados e reflexões que se acumularam passo a passo.

Foram muitas pessoas, muitas conversas, muitos aprendizados, muitos quilômetros percorridos pela natureza, mas também muitas horas de silêncio e reflexão. Tudo no Caminho tinha um propósito. Ele transformou meu modo de pensar, de ver, de me sentir livre. Fiz todo o Caminho Francês sozinha. Muitos dias eu começava a caminhar de madrugada, no escuro, às vezes com alguém por perto, às vezes com ninguém — só eu, Deus e o Caminho. E, por incrível que pareça, não senti medo em momento algum. Ali eu me sentia em casa e protegida.

Quando saí de Saint-Jean-Pied-de-Port, errei a rota. Eu errei no primeiro dia… NO PRIMEIRO DIA! Eu estava em uma mistura de emoção, ansiedade e tantos sentimentos que simplesmente continuei caminhando sem perceber que deveria me manter à direita. Quando notei que já não havia ninguém por perto, consultei os aplicativos e vi que estava no caminho errado. Mas tudo bem, isso acontece quando a gente vive os próprios sonhos! O trajeto, porém, foi lindo — extremamente lindo! Eu o desejava profundamente, especialmente a travessia dos Pireneus, a cadeia montanhosa do sul da França. O amanhecer foi um espetáculo à parte, indescritível. Paisagens encantadoras, de tirar o fôlego; ovelhas, cavalos; muitas subidas sem sombra e depois descidas bem íngremes. A mochila pesava bastante, os ombros doíam, mas era o primeiro dia de adaptação… para mim, para o meu corpo, para ele com a mochila. A partir dali seríamos um só, por muitos dias.

No 19º dia do Caminho, nas Mesetas, completei 35 anos e passei a noite em Astorga, uma cidade lindíssima, cercada por muralhas. Nesse dia, fiquei em um albergue brasileiro e pude reviver o sabor da comida do meu país. Mesmo com a saudade de casa, sentia que estava exatamente onde deveria estar.

Quando chegou o grande dia — aquele que eu já tinha vivido um milhão de vezes na minha mente —, amanheceu chovendo. Depois veio a neblina. No Monte do Gozo, lugar de onde já se pode ver a cidade e as torres da Catedral, não se via nada. Comecei a ficar ansiosa porque não queria chegar sem poder ver. Mas, à medida que me aproximava, o céu se abriu e já pude avistar as torres ao longe. Pouco antes de chegar à Praça do Obradoiro, em Santiago de Compostela, a emoção tomou conta de mim. Um senhor tocava a música medieval “Dum Pater Familias”, também conhecida como “Canto de Ultreia” ou “Canção dos Peregrinos Flamengos”. Essa melodia, uma das mais antigas que fazem referência ao culto a Santiago, acompanha os peregrinos que chegam à praça e à Catedral. Eu já tinha visto vários vídeos desse momento. Mas estar ali, sentir, viver, emocionar-me… foi inexplicável. E adivinhem? Até o sol apareceu para me receber!

Ali sentada, com a Catedral à minha frente e a mochila ao lado, muitas emoções vieram à tona: risos, lágrimas, pensamentos sobre minha família, minha mãe, tudo o que eu tinha vivido nos últimos anos, o quanto eu desejara estar ali. Por um longo tempo permaneci sentada, vivendo e apreciando o momento, sentindo-me viva e agradecendo por tudo.

Atualmente, estou escrevendo um livro para contar tudo o que vivi e aprendi — um livro que também fala sobre coragem. O que a vida nos pede é coragem: coragem para ir em busca, coragem para não desistir. Quem caminha entende que o momento certo é o que se vive, não o que se espera. O chão molhado, o vento contra, o imprevisto… tudo isso ensina mais do que a calmaria. O Caminho nunca promete conforto, mas sempre oferece aprendizado.

Caminho Francês
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